Ano I
16 de novembro de 2008 – 20.30h
Reunião da MIUNI
Prédica do Dr. P. Gottfried Brakemeier sobre o tema:
Sacerdócio Real (1 Pedro 2.2-10)
I Texto
2.2 - desejai como meninos recém-nascidos, o puro leite espiritual, a fim de por ele crescerdes para a salvaçăo, 2.3 - se é que já provastes que o Senhor é bom; 2.4 - e, chegando-vos para ele, pedra viva, rejeitada, na verdade, pelos homens, mas, para com Deus eleita e preciosa, 2.5 - vós também, quais pedras vivas, sois edificados como casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, aceitáveis a Deus por Jesus Cristo. 2.6 - Por isso, na Escritura se diz: Eis que ponho em Siăo uma principal pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer năo será confundido. 2.7 - E assim para vós, os que credes, é a preciosidade; mas para os descrentes, a pedra que os edificadores rejeitaram, esta foi posta como a principal da esquina, 2.8 - e: Como uma pedra de tropeço e rocha de escândalo; porque tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados. 2.9 - Mas vós sois a geraçăo eleita, o sacerdócio real, a naçăo santa, o povo adquirido, para que anuncieis as grandezas daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; 2.10 - vós que outrora nem éreis povo, e agora sois de Deus; vós que năo tínheis alcançado misericórdia, e agora a tendes alcançado.
II Prédica
"Sacerdote é alguém que leva pessoas a Deus." Quem o disse foi o reformador Martim Lutero. Ele inverteu a perspectiva. Pois normalmente se entende que sacerdote traz Deus para perto das pessoas. Ele se veste de uma maneira especial, trabalha no templo, administra o sagrado. Um sacerdote é representante de Deus na terra. Fala em nome de Deus, perdoa em nome de Deus, age em nome de Deus. Na Bíblia nós encontramos muitas passagens que o comprovam, principalmente no Antigo Testamento. Sacerdote é um intermediário entre Deus e o ser humano, é mediador, aproxima Deus de seu povo. Então, por que Lutero mudou a perspectiva e diz ser tarefa de sacerdote não trazer Deus a nós, e, sim, de levar gente a Ele?
Igreja luterana não tem sacerdotes entre seus obreiros. Nós temos pastores e pastoras, diáconos e diáconas, catequistas, missionários e missionárias. Mas sacerdotes? Não. Isto é diferente na Igreja Católica, na Igreja Ortodoxa e ainda outras. Padre é sacerdote, é clérigo, aliás, o único autorizado a celebrar o sacramento da eucaristia. Os leigos não têm a mesma competência. Na antiguidade existiam sacerdotes também em religiões pagãs. Em parte, isto ainda hoje é assim. Aparentemente as religiões necessitam de pessoas especialmente encarregadas e legitimadas a fazer a ponte entre Deus e o ser humano. Sacerdotes são pessoas que por essa razão são chamadas de "pontífices". Constroem "pontes" entre o céu e a terra, entre Deus e sua criatura, entre o sagrado e o profano. Com isso desempenham função importante, importantíssima. Se, porém, assim é, por que nós luteranos não temos sacerdotes? Estamos errados em nossa posição?
Ora, nós também conhecemos sacerdotes, sim. É incorreto dizer que os desconhecemos. Eu até arrisco a dizer: Em igreja luterana, sacerdotes são mais importantes do que em muitas outras igrejas. Certo é que não aplicamos esse título a nenhum ministério na Igreja. Mas isto justamente porque afirmamos que todos os fiéis são sacerdotes. Quem foi batizado é sacerdote de Deus, foi chamado para pertencer ao povo santo, a uma "raça escolhida", a um sacerdócio real. É exatamente isto o que diz o texto para a prédica de hoje. "Vocês são sacerdotes do Rei", escreve o apóstolo Pedro nesta carta. Vocês foram chamados da escuridão para a maravilhosa luz de Deus. Vocês são povo de propriedade exclusiva de Deus, já não pertencem a nenhum outro senhor nem andam órfãos ou abandonados neste mundo. Nas igrejas luteranas falamos do “sacerdócio geral de todos os crentes”. Atribuímos o sacerdócio não a um grupo seleto de pessoas, e, sim, a todas as pessoas cristãs. Não o transformamos num "ministério específico" por entendermos que a comunidade em seu todo está encarregada de funções sacerdotais. Um dos grandes pilares dessa convicção, embora de modo algum o único, é o texto da prédica de hoje.
Talvez compreendamos agora a interpretação de Lutero. Eu repito: É função de sacerdote, diz ele, levar outras pessoas a Deus. E de fato. É somente isto o que conseguimos fazer. Nós não somos representantes de Deus na terra. Não somos seus substitutos. E se nos comportarmos como divindades, nós nos tornamos ridículos. Nós somos gente falha, carregamos nossa culpa, lutamos com as nossas limitações. Não! Foi um só quem encarnou Deus nesta terra, Jesus Cristo. Este sim, trouxe Deus ao mundo, revelou o Pai que está nos céus, falou e agiu como Filho de Deus. Jesus Cristo, sim, foi o sumo sacerdote. Na pessoa dele Deus mesmo veio ao mundo para nos procurar e salvar. Mas nós não somos Jesus Cristo. Seria arrogância querer ocupar o espaço dele. Nós devemos satisfazer-nos com a função que Lutero atribui ao “sacerdócio” real” dos crentes, a saber, levar gente a Deus.
E se tivermos feito isso, teremos feito uma grande obra. Pois teremos levado gente a Jesus Cristo. É este o melhor serviço que podemos prestar aos nossos filhos, aos vizinhos, aos nossos concidadãos, ao nosso próximo. Nós não salvamos ninguém. Mas nós sabemos onde encontrar a salvação. Ela está em Jesus Cristo. Também disto nos fala este texto. Embora não use o termo "sumo sacerdote" que vamos encontrar na carta aos hebreus, ele apregoa Cristo como "pedra angular" da construção de Deus, da igreja, da comunhão dos santos. Deus constrói a sua comunidade neste mundo. E ele o faz usando Jesus Cristo como pedra que segura todo o edifício. É uma figura, uma parábola, mas todo o mundo entende o que ela quer dizer.
Essa pedra, é verdade, foi rejeitada. Jesus Cristo sofreu a cruz. Ele parecia ser impróprio como salvador. Sua fraqueza, seu amor, sua disposição para perdoar escandalizavam as pessoas. Queriam um outro messias, mais poderoso, mais violento, um verdadeiro herói. Assim acontece ainda hoje. Há pessoas que se decepcionam com Jesus Cristo e que tropeçam sobre esta pedra. Mas Deus escolheu justamente o Jesus crucificado para construir a sua comunidade no mundo. Se vocês querem conhecer Deus, vejam a história de Jesus, o que ele fez, o que ele disse, o que ele sofreu. A pedra que os construtores rejeitaram, esta veio a ser a pedra principal.
Prezadas irmãs e irmãos! Nós somos "comunidade de Jesus Cristo". Justamente como igreja luterana nós o somos. Nosso sacerdote é ele, Jesus. Ele fez a ponte entre Deus e nós. Por isto não precisamos de outros sacerdotes além dele. Foi ele quem nos reconciliou com Deus, que trouxe o perdão de nossa culpa, a promessa de vida apesar da morte. De que nós precisamos, isto sim, é gente que faz conhecida essa fonte de vida, que leva pessoas a conhecer Jesus Cristo, que dá testemunho a seu respeito. E aí nós todos estamos sendo desafiados. Vamos colocar em prática o “sacerdócio geral de todos os crentes”. Isto significa: Todo cristão, toda cristã, todo membro da comunidade, toda pessoa batizada é um sacerdote. Ou será antipático esse convite? Como é que vamos desincumbir-nos da função?
Eu acho que a tarefa é muito simples. Não precisamos fazer curso nem passar por um treinamento especial. Basta levar a sério a nossa fé. Mais uma vez eu recorro ao texto da prédica de hoje. Ele fala em "pedras vivas" que Deus usa na construção de seu templo espiritual. Ser sacerdote de Deus é ser pedra não morta, e, sim, viva o que é sinônimo de pessoas que vivem a sua fé. Somos encorajados a orar com nossos filhos, a ler a Bíblia, a louvar a Deus e a agradecer-lhe os benefícios. E digo mais: Ser sacerdote significa fazer uma diferença na sociedade. Creio que pessoa cristã, mais do que qualquer outra,
deve mostrar inconformidade com os crimes, com a corrupção, com o mal que nos aflige. Temos muita necessidade de tais pessoas. E são estes os "sacrifícios" que Deus espera de nós. O apóstolo Paulo disse na carta aos
romanos: "Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê." Assim também nós. Somos chamados a nos orgulhar do evangelho, não escondendo o nosso credo. “Sacerdócio” geral de todos os crentes” é isto: Uma comunidade de cristãos e de cristãs convictos, atuantes, levando gente a Jesus Cristo.
Pois é, eu sonho com tal comunidade. Sei que ficamos em débito com o que deveríamos ser. Assustam-me os termos honrosos que o apóstolo Pedro aplica ao povo de Deus: "Raça eleita", "nação completamente dedicada a Deus", ou seja, "nação santa", “sacerdócio real”. Ainda não somos o que deveríamos ser. Continuamos dependendo do perdão de nossos pecados. Por isto precisamos da permanente lembrança do evangelho, da misericórdia de Deus, da qual vivemos. É a razão porque temos oficiantes em nossos cultos, pastores como eu ou outros obreiros que anunciam a palavra e administram os sacramentos. Eles usam uma veste talar. De certa forma desempenham também eles funções sacerdotais, embora não sejam portadores do título. Têm a obrigação de falar em nome de Deus. Os obreiros e as obreiras da IECLB atuam por mandato divino. É isto o que diz o talar. Mesmo assim, o sacerdote por excelência é e permanece sendo Jesus Cristo. Também como pastor, no fundo, não tenho outra tarefa senão a de levar gente a ele.
Eu sou grato a Deus que ele usa pessoas imperfeitas para construir seu reino. Creio não dizer nada demais, se afirmo que não somos comunidade perfeita. Até sofremos sob nossos problemas. Mas isto não anula a nossa vocação. Então, sejamos sacerdotes nos lugares de nossa atuação, na família, na profissão,no lazer, seja onde for. Vamos levar um pouco de luz para as trevas, um pouco de alegria para as tristezas, um pouco de esperança para o desânimo. Sejamos exemplos de pessoas algo diferentes, críticas em nosso mundo sem deixar de serem construtivas. A sociedade brasileira vai ser grata por gente assim. Será sal da terra, luz do mundo, bem assim como Jesus quer. É para isto que o texto da pregação de hoje nos quer animar. Permaneçamos humildes e, no entanto, decididos no exercício da função de que Deus nos encarrega. Que Ele nos ajude. Amém!
Vamos debater sobre o assunto?
1. Como você se sente sabendo que é um sacerdote, uma sacerdotisa?
2. O que eu aprendi com este texto, com esta prédica?