4 de abr de 2010

Páscoa... o antes e o novo

Os dias passam muito depressa!

Os apelos por coisas novas – novos produtos, novas tecnologias, nova forma de se vestir, nova maneira de se portar, novas gírias, nova dieta... – inundam nossas mentes e aceleram nossos desejos.

Mudar é bom, é necessário. Ficar sempre na mesmíce, envelhece, deixa a gente insensível para as coisas novas que as novas pessoas podem nos ensinar.

A Páscoa, com a história da paixão e morte de Jesus, Sua ressurreição e vitória sobre a morte, pode ter o mesmo efeito sobre nós. Para algumas pessoas é história velha e repetida à exaustão. Para outras é fonte de mudança e tomada de decisão.

Quero ilustrar este pensamento com uma história que um Pastor da nossa Igreja escreveu certa vez.

É uma história, uma história de Páscoa. Ela se dá no mundo animal, num lamaçal, onde morava uma libélula e uma sanguessuga. O inseto e o verme não conheciam outro mundo. Eles estavam restritos ao local onde moravam. Era tudo o que conheciam.

A libélula nadava sobre a água lodosa e observava o que se passava. Não, não que estivesse insatisfeita, estava tudo bem normal assim. Mas parecia pressupor que existia um mundo melhor. Ela percebia, sobre a água, uma sombra em movimento. Concluía haver algo além do ambiente no qual vivia.

No mesmo lamaçal também estava a sanguessuga a nadar. A libélula a interpelou:

– Eu estava observando aquela sombra que vem lá de cima e chego à conclusão que existe algo além da lama na qual vivemos. Olhe lá. Dê só uma olhada!

– Pare com esta conversa. Você está redondamente enganada. Acredite em mim, sou uma experiente sanguessuga. Já andei por muitos caminhos. Este lamaçal é o nosso mundo e o mundo é um lamaçal... e aqui nos resta viver. Às vezes consigo tirar o sangue de uns e outros, afinal também preciso sobreviver. Mas isso é tudo.

– Mas como pode, eu vi a sombra e a luz!, exclamou a libélula.

– Você se engana, não invente coisas, respondeu a sanguessuga. E a vida continuava naquele lamaçal.

Certo dia, quando a libélula estava observando as alturas, teve uma estranha sensação. Ela se retorceu e nela nasceram asas. Embora ainda insegura, começou a voar. As suas asas brilhavam no sol. Deixou para trás o lamaçal, os restos de decomposição orgânica e a influência da sanguessuga. Viu e sentiu um outro mundo!

Esta é uma história de Páscoa. Este mundo é um lamaçal e seguidamente ficamos nele atolados. A libélula vivia no lamaçal, mas pressentia que havia algo melhor. Ela reparava, perguntava e esperava. Esperava! Esperava porque sabia que algo poderia mudar. Esperava!

“... mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam” (Isaías 40.31).

Quem tem esperança ingressa num novo mundo. Mas, paradoxalmente, este mundo parece não permitir que alguém continue esperando. O mundo da ação imediata (às vezes, imediatista) não trabalha mais com a possibilidade de olhar para Deus e esperar dEle Sua intervenção milagrosa. O mundo centrado no poder das pessoas não admite a espera que fracassos impõem às pessoas. Não há espaço para aquilo que não signifique prosperidade. A graça da cruz se torna inexpressiva porque tem cheiro de derrota. A libélula observou. Ela esperou, contra todas as evidências. Criou asas e saiu do lamaçal. Quando nascem em nós as asas da esperança chamada Jesus, a esperança da fé e do amor, começamos a voar e agir, libertos da lama que nos cerca.

Páscoa é a libertação dos limites! É um olhar para dentro da esperança!

Não está assim com Deus a minha casa? Pois estabeleceu comigo uma aliança eterna, em tudo bem definida e segura. Não me fará ele prosperar toda a minha salvação e toda a minha esperança? afirma o rei Davi em 2 Samuel 23.5.

O que nos limita? Dificuldades, doença, morte, desespero, miséria? Seriam as falsas promessas e as desilusões? Seriam as traições? Ou a própria falta de fé? Neste lamaçal qual a postura que adotamos? A da sanguessuga ou a da libélula?

Davi, ao fazer um balanço da sua vida toda, ainda acreditou na esperança. Nem todos os seus objetivos haviam sido alcançados, mas esperava que fossem. E assim ficou em paz.

Deus escolheu a vida, a morte e a ressurreição de Cristo para mostrar que esse mundo tem salvação e pode viver da esperança ativa e transformadora. Como o profeta Isaías bem observou, naquele dia, o Renovo do SENHOR será de beleza e de glória; e o fruto da terra, orgulho e adorno, brotando das profundezas da morte e da sombra dos poderes do mal.

Não fiquemos acomodados no lamaçal que pode agora estar nos envolvendo. Esperança não é sinônimo de acomodação nem no dicionário. Contra a pressa impensada do mundo, tenha esperança. Aja com esperança. Semeie com esperança. Existe esperança, existe salvação. Ela se encontra na Páscoa. Ela se encontra na ressurreição de Jesus Cristo.


O texto foi escrito pelo P. Rolf Rieck, publicado (juntamente com a imagem) no portal Luteranos. Para ler mais artigos sobre essa data especial que comemoramos hoje, a Páscoa, clique aqui.

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